Manifesto do Partido Comunista — O que você precisa saber

As ideias do livro em quinze minutos

Leitura do texto integral em blocos, uma ficha por bloco, síntese sobre as fichas. Tudo aqui sai do livro; o que vem de fora vem marcado. Ver o texto integral e o resumo.

Em uma frase

O capitalismo é a força mais revolucionária que a história já produziu, e é exatamente por isso que ele cria, na classe que explora, a força que o sepultará.

Por que este livro importa

O Manifesto é um panfleto de encomenda: a Liga dos Comunistas pediu a Marx e Engels, no congresso de Londres de novembro de 1847, um programa de partido, e o manuscrito chegou ao impressor poucas semanas antes da Revolução de Fevereiro de 1848. Nada nele é escrito para durar — e é o texto político mais lido dos últimos dois séculos. Essa desproporção é o primeiro fato a entender: um documento de circunstância que virou, como Engels diria em 1890, “o programa comum de muitos milhões de operários de todos os países desde a Sibéria à Califórnia”.

O que Marx e Engels herdam é uma crítica social já existente e, segundo eles, inútil: aristocratas nostálgicos, pequeno-burgueses assustados, filósofos alemães traduzindo miséria em “essência humana”, utopistas desenhando colônias modelo. A seção III inteira existe para liquidar essa concorrência. A tese contra a qual eles escrevem não é “o capitalismo é bom” — é “o capitalismo pode ser corrigido sem tocar na relação entre capital e trabalho assalariado”.

O que mudou depois dele não está no livro. Duas coisas, em síntese: o Manifesto inaugurou a leitura da história pela estrutura econômica — hoje pressuposto banal de qualquer historiador, marxista ou não —, e forneceu o vocabulário político (classe, burguesia, proletariado, luta de classes) em que o século XX discutiu a si mesmo, inclusive quem o combateu. É também o texto pelo qual o marxismo foi mais lido e menos entendido: quase tudo que se atribui a ele em matéria de projeto de Estado não está aqui.

As ideias-chave

A história inteira é uma história de lutas de classes

Não há sujeito histórico individual, nem progresso do espírito: o que se move na história é o antagonismo entre quem detém os meios de produção e quem trabalha. Toda luta assim terminou de um de dois modos — na reconfiguração revolucionária da sociedade, ou no declínio comum das duas classes em luta.

Sustenta: a enumeração dos pares antagônicos que abrem o capítulo I — livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e oficial — e o contraste entre a “múltipla gradação das posições sociais” de Roma e da Idade Média e a simplificação moderna em dois campos.

Onde: cap. I · original

Engels acrescenta, em nota de 1888, que a frase vale para toda a história escrita: em 1847 a pré-história era desconhecida, e os trabalhos posteriores de Haxthausen, Maurer e Morgan sobre a propriedade comum da terra e a gens o levaram a admitir uma fase anterior às classes.

A burguesia produz, antes de tudo, o seu próprio coveiro

A mesma grande indústria que dá poder à burguesia concentra em fábricas e cidades uma massa de trabalhadores sem propriedade, disciplinada pela própria produção e capaz de se organizar. A queda da burguesia e a vitória do proletariado são apresentadas como “igualmente inevitáveis”.

Sustenta: o encadeamento das imagens — a burguesia forja “as armas que lhe trazem a morte” e gera “os homens que manejarão essas armas” —, e o argumento de que o trabalho assalariado repousa na concorrência entre operários, que a grande indústria substitui pela união em associação. Reforça-o a comparação com o servo medieval, que subia à condição de membro da comuna, enquanto o operário moderno afunda abaixo das condições de sua própria classe.

Onde: cap. I · original

As crises do capitalismo são de excesso, não de escassez

Nas crises comerciais periódicas a sociedade fica subitamente incapaz de sustentar-se — não por falta, mas por “excesso de civilização, de meios de subsistência, de indústria, de comércio”. As forças produtivas ficaram grandes demais para as relações de propriedade que as contêm.

Sustenta: a descrição da “epidemia da sobreprodução” e da destruição regular de mercadorias e de forças produtivas em cada crise; e a observação de que a burguesia só supera cada crise “preparando crises mais omnilaterais e mais poderosas” — isto é, cada solução encurta o intervalo até a próxima.

Onde: cap. I · original

A burguesia foi a classe mais revolucionária da história

Onde chegou ao poder, destruiu as relações feudais e patriarcais, dissolveu a dignidade pessoal em valor de troca, transformou médico, jurista, padre e cientista em assalariados, reduziu a família a relação de dinheiro e criou um mercado mundial que obriga toda nação a adotar o modo de produção burguês. E não pode parar: a burguesia é a primeira classe da história que não sobrevive sem revolucionar permanentemente seus instrumentos de produção.

Sustenta: o contraste explícito com as classes industriais anteriores, para as quais conservar o modo de produção antigo era condição de existência; e a imagem dos “preços baratos das suas mercadorias” como “a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China”.

Onde: cap. I · original

O alvo não é a propriedade, é a propriedade burguesa — porque capital é poder social

O comunismo não pretende abolir a apropriação pessoal dos meios de vida, e sim a forma de propriedade assente na exploração de classe. O argumento decisivo é que capital não é poder pessoal do capitalista: só é posto em movimento pela atividade comum de muitos, logo já é social. Transformá-lo em propriedade comunitária não converte propriedade pessoal em social — apenas retira dela o caráter de classe.

Sustenta: a distinção entre a propriedade do pequeno artesão e do camponês, já liquidada pela indústria, e a propriedade burguesa moderna, definida pela oposição entre capital e trabalho assalariado; e a réplica de que a propriedade privada “já está suprimida para nove décimos” dos membros da sociedade — existe precisamente por não existir para a maioria.

Onde: cap. II · original

As ideias dominantes de cada época são as ideias da classe dominante

Liberdade, justiça, personalidade e cultura não são verdades eternas ameaçadas pelo comunismo: são formas de consciência produzidas por determinadas relações de produção. A “liberdade” que o burguês teme perder é a liberdade de comércio; a lei é “a vontade da vossa classe elevada a lei”.

Sustenta: a série histórica — as religiões antigas vencidas pelo cristianismo, as ideias cristãs sucumbindo às Luzes no século XVIII no exato momento da luta da burguesia contra a sociedade feudal, a liberdade de consciência exprimindo a dominação da livre concorrência.

Onde: cap. II · original

O Estado é um comitê — e o poder político desaparece com as classes

O poder de Estado moderno é “apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa”. Como poder político é definido estritamente como “o poder organizado de uma classe para a opressão de uma outra”, ele não sobrevive ao fim das classes: o proletariado, ao suprimir as condições da oposição de classes, suprime também a sua própria dominação.

Sustenta: a trajetória traçada da burguesia — de estado oprimido sob os senhores feudais a associação armada na comuna, terceiro-estado tributado, contrapeso à nobreza, base das grandes monarquias e enfim detentora exclusiva do poder no Estado representativo moderno. O fecho é a fórmula da “associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Onde: cap. I e cap. II · original

Os comunistas não são um partido à parte

Não têm interesses separados dos do proletariado nem princípios próprios com que moldar o movimento; distinguem-se apenas por acentuar os interesses comuns e internacionais da classe e por representar, em cada fase, o movimento total. Na prática, isso significa apoiar todo movimento revolucionário existente, mantendo posição crítica e independente, e pôr em relevo, em cada um deles, a questão da propriedade.

Sustenta: a lista de alianças concretas da seção IV — cartistas na Inglaterra, reformadores agrários na América do Norte, socialistas-democráticos na França “sem abdicarem do direito de assumir uma atitude crítica”, radicais na Suíça, o partido da revolução agrária na Polônia, e até a burguesia alemã contra a monarquia absoluta, sem ilusão quanto à oposição que virá em seguida.

Onde: cap. II e seção IV · original

O vocabulário do autor

Termo Sentido no livro O que não é
Burguesia classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e empregadores de trabalho assalariado (definição de Engels, 1888) não é “gente rica”, nem classe média, nem um estilo de vida
Proletariado classe dos trabalhadores assalariados modernos que, sem meios próprios de produção, vendem a força de trabalho para viver não é “os pobres”; o mendigo e o marginalizado são o lumpemproletariado, tratado à parte
Capital poder social — só existe pela atividade comum de muitos, ainda que apropriado por um não é dinheiro, nem máquina, nem poupança pessoal
Propriedade burguesa a forma de propriedade fundada na oposição capital/trabalho assalariado não é a escova de dentes, a casa ou o salário do operário — o texto diz isso explicitamente
Classe posição na produção, definida pela relação com os meios de produção não é faixa de renda nem prestígio social
Poder político “o poder organizado de uma classe para a opressão de uma outra” não é administração, gestão ou coordenação — estas sobrevivem ao fim do poder político
Estados médios pequeno industrial, comerciante, rentista, artesão, camponês: camada em declínio, conservadora ou reacionária não é uma classe intermediária estável
Lumpemproletariado “putrefação passiva” das camadas mais baixas, disponível para maquinações reacionárias não é o proletariado; a confusão inverte o argumento
Comunismo (uso de 1847) o nome que a própria classe operária dava a si mesma ao concluir que reformas políticas não bastavam não designava um Estado, um partido no poder ou um regime
Socialismo (uso de 1847) movimento de origem burguesa: sistemas utópicos em decadência e reformadores que não tocavam em capital nem lucro o par socialismo/comunismo tinha, então, o valor quase inverso do atual
Obchtchina posse comum da terra pelos camponeses russos, forma antiquíssima e já minada não é uma proposta de modelo, e sim o objeto de uma pergunta em aberto
Pfahlbürger morador do espaço entre o castelo e a paliçada na cidade medieval, em geral mercador; origem dos primeiros elementos da burguesia não tem equivalente em português; foi mantido em alemão

O argumento em ordem

  1. A história das sociedades é a história de lutas entre classes definidas pela posição na produção.
  2. A burguesia venceu a sua luta e, para se manter, precisa revolucionar sem parar os meios de produção — o que dissolve toda relação social estável e cria o mercado mundial.
  3. Esse mesmo movimento concentra os trabalhadores, reduz o salário ao mínimo de subsistência e simplifica o conflito social em dois campos.
  4. As forças produtivas criadas ultrapassam as relações de propriedade que as contêm; a prova recorrente são as crises de superprodução, cada uma superada ao preço de preparar outra maior.
  5. Logo a burguesia já não consegue assegurar a existência do trabalhador de quem vive — deixou de ser capaz de dominar.
  6. O proletariado, sem propriedade a defender, é a primeira classe cuja emancipação é a de toda a sociedade: seu movimento é o da maioria imensa no interesse da maioria imensa.
  7. Ele toma o poder político, centraliza os meios de produção e, ao suprimir as classes, suprime o próprio poder político.

Os elos frágeis estão à vista: o passo 3 supõe uma polarização crescente, e o passo 5 supõe empobrecimento crescente. Se as sociedades industriais produzirem camadas intermediárias estáveis e salários em alta, o passo 6 perde a base material — o argumento não é falso em cada peça, mas depende inteiramente dessas duas tendências. O passo 7 é o mais desprotegido: nada no texto explica como um poder político concentrado se desmonta a si mesmo.

O que o livro não diz

  • Não descreve a sociedade comunista. Isso não é omissão: desenhar a sociedade futura é precisamente o que os autores condenam em Fourier, Owen e Cabet. Além da fórmula final sobre o livre desenvolvimento de cada um, não há projeto.
  • Não propõe abolir a propriedade pessoal. O texto afirma o contrário, explicitamente, e chama a acusação de deturpação.
  • As dez medidas não são “o programa comunista”. O próprio texto as apresenta como “de um modo bastante geral” para os países mais avançados e admite que “economicamente parecem insuficientes e insustentáveis”; no prefácio de 1872 Marx e Engels declaram que já não teriam peso particular, porque a aplicação depende sempre das circunstâncias.
  • Não fala de partido único, planificação central permanente ou Estado operário duradouro. O Estado, no argumento, é transitório por definição.
  • Não diz que a revolução se dará primeiro nos países atrasados. Sobre a Rússia, a resposta de 1882 é condicional: a comuna camponesa só poderia servir de ponto de partida comunista se a revolução russa fosse o sinal de uma revolução operária no Ocidente e ambas se completassem.
  • Não é uma obra de economia. Não há mais-valia. Engels registra em nota que “valor do trabalho” e “preço do trabalho”, usados aqui, foram depois substituídos por “valor” e “preço da força de trabalho” — a correção que torna possível O Capital.
  • Não promete um progresso linear. O texto reconhece que a organização operária “é rompida de novo a cada momento pela concorrência entre os próprios operários”, e que a burguesia sai vitoriosa de cada crise.
  • Os autores dataram o próprio livro. Em 1872 apontam três defasagens (as medidas da seção II, a crítica da literatura socialista, a apresentação da seção IV); a Comuna de Paris ensinou-lhes que “a classe operária não pode simplesmente tomar posse da máquina de Estado montada e pô-la em movimento para os seus objetivos próprios”; em 1882 admitem a lacuna sobre Rússia e Estados Unidos; em 1893 Engels reconhece que 1848 “não foi uma revolução socialista”. Mesmo assim recusam corrigir uma linha: o Manifesto virou documento histórico que já não se arrogam o direito de alterar.

Esta seção inteira vem de fora do livro. Pode estar desatualizada ou errada.

  • A polarização não veio. As sociedades industriais avançadas não se dividiram em dois campos: cresceram camadas assalariadas médias, técnicas e de serviços que o esquema não previa. É a objeção empírica mais séria, e atinge o passo 3 do argumento.
  • A pauperização absoluta não se confirmou nos países centrais. Salários reais e condições de vida subiram por mais de um século — no que se apoiou a crítica revisionista de Eduard Bernstein, para quem o capitalismo se adaptava em vez de colapsar. A réplica corrente é deslocar o argumento para desigualdade relativa e para a escala mundial, o que não é o que o texto diz.
  • O ponto cego institucional. Ao definir todo poder político como opressão de classe, o texto não tem como pensar garantias contra o poder que ele mesmo propõe concentrar: nada sobre limites, divisão de poderes ou direitos de minoria. A objeção foi feita já no século XIX pela ala anarquista da Internacional — Bakunin é o nome mais citado — e o século XX lhe deu material abundante.
  • A inevitabilidade. Declarar o declínio da burguesia e a vitória do proletariado “igualmente inevitáveis” é uma afirmação que nenhuma evidência poderia derrubar; é o alvo da crítica de Karl Popper ao historicismo. Note-se que ela convive mal com o próprio texto, que descreve derrotas, recuos e desorganização recorrente.
  • A leitura do colapso. Há mais de um século de disputa sobre se o texto prevê um colapso econômico automático ou apenas as condições de uma ação política. O Manifesto, sendo um panfleto, permite as duas leituras — e a ambiguidade é dele, não dos leitores.

Se você só ler trinta páginas

  1. Capítulo I inteiro — é o livro. Ascensão da burguesia, crises, formação do proletariado, o coveiro. Sem ele, nada mais faz sentido.
  2. Capítulo II até as dez medidas — a resposta às acusações (propriedade, família, pátria, ideias) e a definição de capital como poder social.
  3. Seção IV — duas páginas; a única parte sobre o que fazer na prática, e o fecho célebre.
  4. Prefácio à edição alemã de 1872 — três páginas em que os próprios autores dizem o que no livro envelheceu.

O que se perde ao parar aí: a seção III é a que revela contra quem o Manifesto foi escrito — aristocratas, pequeno-burgueses, filósofos alemães e utopistas. Sem ela, o texto parece dirigido à burguesia; ele é, em boa medida, dirigido aos outros críticos do capitalismo. E perde-se o aparato de notas de Engels, onde estão as definições mais precisas de burguesia e proletariado.

Ficha

Autoria Karl Marx e Friedrich Engels
Publicação Londres, fevereiro de 1848
Edição base Editorial Avante!, 1997 — tradução de José Barata Moura
Extensão ~137 KB de texto: sete prefácios (1872–1893), quatro seções e 133 notas
Dificuldade 2/5 — a prosa é de panfleto, feita para ser lida em voz alta; a dificuldade real está no vocabulário, que parece corrente e não é
Pré-requisitos nenhum; ajuda saber o que foram 1848 e a Comuna de Paris de 1871
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