Manifesto do Partido Comunista — Resumo

~30% do original, sem perda de conceito

Compressão a ~30% do volume eliminando floreio, redundância, voz passiva e exemplos longos — nunca conceito, dado ou conclusão. Ver o método e o texto integral.

Prefácio à Edição Alemã de 1872

A Liga dos Comunistas — associação operária internacional, necessariamente secreta — encarregou Marx e Engels, no congresso de Londres de novembro de 1847, de redigir o programa do Partido. O manuscrito seguiu para o impressor poucas semanas antes da Revolução de Fevereiro de 1848. Em 25 anos o texto correu o mundo: doze edições alemãs; inglês no Red Republican (1850, tradução de Helen Macfarlane) e três versões americanas em 1871; francês em Paris às vésperas da insurreição de Junho de 1848; polonês, russo (Genebra, anos 60) e dinamarquês.

Os princípios seguem corretos; a aplicação, avisa o próprio texto, depende sempre das circunstâncias. Por isso os autores não dão peso às medidas do fim da seção II — hoje as redigiriam de outro modo, diante do salto da grande indústria e das lições da Comuna de Paris, na qual o proletariado deteve o poder por dois meses.

A Comuna provou que a classe operária não pode simplesmente tomar posse da máquina de Estado já montada e pô-la a funcionar para os seus próprios fins.

Outras defasagens: a crítica da literatura socialista para em 1847, e a seção IV envelheceu na apresentação — a história liquidou a maioria dos partidos ali listados. Ainda assim, nenhuma linha é corrigida: o Manifesto virou documento histórico, e eles já não se arrogam o direito de alterá-lo.

Londres, 24 de junho de 1872. Karl Marx, Friedrich Engels

Prefácio à (segunda) Edição Russa de 1882

A primeira edição russa, traduzida por Bakunin, era vista no Ocidente como curiosidade literária. Hoje, impossível. A prova de quão estreito era o terreno do movimento em 1847 está no capítulo final: faltam ali Rússia e Estados Unidos — então os dois pilares da ordem europeia, a Rússia como última reserva da reação, os EUA absorvendo pela imigração o excedente proletário europeu, ambos vendendo matérias-primas e comprando manufaturas. Tudo se inverteu:

  • A imigração criou nos EUA uma agricultura gigantesca, cuja concorrência abala a propriedade fundiária europeia, grande e pequena.
  • A exploração dos recursos industriais americanos logo quebrará o monopólio da Europa Ocidental, sobretudo o inglês.
  • O efeito volta-se contra a própria América: a pequena e média propriedade do lavrador, base de toda a sua constituição política, sucumbe às fazendas gigantes, enquanto surgem um proletariado maciço e uma concentração fabulosa de capitais.
  • O tsar, proclamado chefe da reação europeia em 1848-49, está hoje em Gátchina como prisioneiro de guerra da revolução — e a Rússia virou vanguarda revolucionária da Europa.

Daí a pergunta russa: ao lado de um capitalismo em florescimento febril, mais de metade do solo continua em posse comum dos camponeses. Pode a Obchtchina — forma já minada da antiquíssima posse comum da terra — saltar direto para a posse comum comunista, ou terá de passar pelo processo de dissolução do Ocidente?

Única resposta possível hoje: se a revolução russa for o sinal de uma revolução proletária no Ocidente, e ambas se completarem, a atual propriedade comum russa do solo pode servir de ponto de partida para um desenvolvimento comunista.

Londres, 21 de janeiro de 1882. Karl Marx, F. Engels

Prefácio à Edição Alemã de 1883

Engels assina sozinho: Marx repousa em Highgate, e sobre o túmulo já cresce a primeira erva. Não se fala mais em refundir o Manifesto — razão para fixar, expressamente, o pensamento fundamental que o percorre:

  • A produção econômica de cada época, e a articulação social que dela decorre por necessidade, formam a base de sua história política e intelectual.
  • Toda a história, desde a dissolução da posse comum do solo, tem sido história de lutas de classes.
  • A luta chegou a um estádio em que o proletariado não pode se libertar da burguesia sem libertar, ao mesmo tempo e para sempre, a sociedade inteira da exploração, da opressão e das lutas de classes.

Este pensamento fundamental pertence única e exclusivamente a Marx.

Londres, 28 de junho de 1883. F. Engels

Prefácio à Edição Inglesa de 1888

A derrota da insurreição de Junho de 1848 — primeira grande batalha entre proletariado e burguesia — empurrou as aspirações operárias para o fundo do palco: a disputa pela supremacia voltou a ser assunto interno das classes possidentes, e a classe operária ficou reduzida a ala extrema dos radicais de classe média. A polícia prussiana desmontou o Comitê Central da Liga em Colônia; após dezoito meses de prisão veio o julgamento dos Comunistas de Colônia (4 de outubro a 12 de novembro de 1852), com sete condenados a penas de três a seis anos. A Liga dissolveu-se, e o Manifesto parecia condenado ao esquecimento.

O renascimento veio com a Associação Internacional dos Trabalhadores, que não podia proclamar de saída os princípios do Manifesto: precisava caber as trade unions inglesas, os proudhonianos e os lassalleanos. Marx redigiu esse programa largo e apostou no desenvolvimento intelectual da própria classe, que a ação combinada produziria. Apostou certo: as derrotas, mais que as vitórias, desmontaram as panaceias de cada corrente. Dissolvida em 1874, a Internacional deixou homens muito diferentes dos de 1864 — e até as conservadoras trade unions chegaram ao ponto em que seu presidente pôde declarar, em Swansea, que o socialismo continental já não lhes metia medo.

A história do Manifesto reflete a história do movimento operário moderno. É hoje a produção mais internacional e divulgada de toda a literatura socialista — plataforma comum de milhões de operários, da Sibéria à Califórnia.

Por que “comunista” e não “socialista”? Em 1847 as palavras significavam o oposto do que sugerem hoje. Socialistas eram os adeptos dos sistemas utópicos — owenistas e fourieristas, já seitas moribundas — e os charlatães sociais que prometiam remendar todos os males sem arranhar capital e lucro; uns e outros fora do movimento operário, buscando apoio nas classes “educadas”. Comunista era o setor operário convencido de que revoluções meramente políticas não bastavam: um comunismo instintivo e cru, mas que já punha o dedo na chaga e gerou o comunismo utópico de Cabet na França e de Weitling na Alemanha. Socialismo era movimento de classe média e, no Continente, “respeitável”; comunismo era movimento operário e exatamente o contrário. Como a convicção era que “a emancipação da classe operária tem de ser obra da própria classe operária”, não havia dúvida sobre o nome a adotar — e nunca o repudiaram.

Engels reafirma que a proposição-núcleo é de Marx e mede sua ambição: ela fará pela história o que a teoria de Darwin fez pela biologia. Ele próprio caminhava nessa direção — como mostra sua Situação da Classe Operária em Inglaterra —, mas ao reencontrar Marx em Bruxelas, na primavera de 1845, encontrou-a já formulada. A tradução é de Samuel Moore, tradutor da maior parte de O Capital.

Londres, 30 de janeiro de 1888. Frederick Engels

Prefácio à Edição Alemã de 1890

Engels retraduz aqui o prefácio russo de 1882 (perdeu o original alemão) e atualiza o inventário: nova tradução polonesa em Genebra; dinamarquesa de 1885, incompleta e descuidada; francesa de 1886, a melhor até então; espanhola tirada dessa; e a inglesa autêntica de 1888. Registra ainda uma tradução armênia abortada em Constantinopla — o editor teve medo de publicar um livro com o nome de Marx, e o tradutor recusou assinar como autor.

A trajetória do texto tem forma de sino: saudado pela vanguarda ainda minúscula do socialismo científico, foi sepultado pela reação após junho de 1848 e proscrito “segundo a lei” com a condenação de Colônia; voltou à cena com a Internacional, cujos estatutos Marx traçou com mestria que até Bakunin e os anarquistas reconheceram. E então o desfecho, escrito no calor do dia:

  • “Proletários de todos os países, uni-vos!” — poucas vozes responderam, 42 anos antes.
  • 28 de setembro de 1864: fundação da Internacional, que viveria nove anos.
  • 1º de maio de 1890: o proletariado europeu e americano passa revista, pela primeira vez, a forças mobilizadas num único exército, sob uma única bandeira, por um objetivo imediato — a jornada legal de oito horas, proclamada pelo Congresso de Genebra em 1866 e pelo Congresso Operário de Paris em 1889.

O espetáculo desse dia abrirá os olhos dos capitalistas de todos os países: os proletários estão de fato unidos. Engels fecha com um lamento pessoal — que Marx pudesse estar ali para ver.

Londres, 1º de maio de 1890. F. Engels

Prefácio à (terceira) Edição Polonesa de 1892

O Manifesto virou barômetro industrial: onde a grande indústria avança, cresce entre os operários a ânsia de entender sua posição de classe, alarga-se o movimento socialista e sobe a procura pelo livro — de modo que, contando exemplares por idioma, mede-se o grau de desenvolvimento industrial de cada país. Logo, nova edição polonesa significa progresso industrial polonês. E significa mesmo: a Polônia do Congresso virou o grande distrito industrial do Império Russo. Enquanto a indústria russa está dispersa — golfo da Finlândia, Moscou e Vladímir, mar Negro e de Azov —, a polonesa está concentrada num espaço pequeno. Os fabricantes russos reconheceram essa vantagem ao pedir proteção alfandegária contra a Polônia, apesar do desejo de russificá-la; a desvantagem, para eles, é a rápida difusão das ideias socialistas.

Uma colaboração internacional sincera das nações europeias só é possível se cada uma delas for, em sua casa, perfeitamente autônoma.

A revolução de 1848 impôs a independência de Itália, Alemanha e Hungria por meio de seus involuntários executores testamentários, Louis Bonaparte e Bismarck. Mas a Polônia — que desde 1792 fez pela revolução mais do que as três juntas — foi deixada só e sucumbiu em 1863 a um poderio russo dez vezes superior. A nobreza não conseguiu reconquistar sua independência; para a burguesia ela é indiferente. Só o jovem proletariado polonês pode conquistá-la, e os operários do resto da Europa precisam dela tanto quanto os poloneses.

Londres, 10 de fevereiro de 1892. F. Engels

Prefácio à Edição Italiana de 1893

A publicação coincidiu quase com 18 de março de 1848, dia dos levantamentos de Milão e Berlim — duas nações enfraquecidas pela divisão interna e por isso entregues à dominação estrangeira: a Itália sob o imperador da Áustria, a Alemanha sob o jugo indireto do tsar. Entre 1848 e 1871 ambas foram reconstituídas, e pelo motivo que Marx apontava: os homens que abateram a revolução foram, contra a própria vontade, seus executores testamentários.

Em toda parte a revolução foi obra da classe operária — foi ela que levantou as barricadas e pagou com a vida. Mas só os operários de Paris pretendiam derrubar, junto com o governo, o regime da burguesia; e mesmo ali faltava a base material e intelectual para uma reconstrução social. Os frutos foram colhidos pela classe capitalista; nos demais países, os operários apenas levaram a burguesia ao poder. Como o reino da burguesia é impossível sem independência nacional, 1848 teve de arrastar consigo a unidade da Itália, da Hungria e da Alemanha — a da Polônia virá.

Se a revolução de 1848 não foi socialista, aplanou o caminho e preparou o solo para a que virá.

Em 45 anos, o impulso à grande indústria criou em toda parte um proletariado numeroso, concentrado e forte: a burguesia criou, na expressão do Manifesto, os seus próprios coveiros. Basta imaginar uma ação internacional comum de operários italianos, húngaros, alemães, poloneses e russos nas condições anteriores a 1848 para ver que autonomia nacional e união internacional são faces da mesma moeda. E Engels fecha com uma provocação literária: a primeira nação capitalista foi a Itália, e o fim da Idade Média está assinalado por Dante, o último poeta medieval e o primeiro moderno.

Produzirá a Itália o novo Dante que marcará a hora do nascimento da era proletária?

Londres, 1º de fevereiro de 1893. Friedrich Engels

MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA

Um espectro anda pela Europa — o espectro do comunismo. Contra ele se aliaram todos os poderes da velha Europa numa santa caçada: o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães. E repare no padrão: não há partido de oposição que não tenha sido xingado de comunista, nem que não tenha devolvido a acusação. Disso decorrem duas conclusões — o comunismo já é reconhecido como um poder por todos os poderes europeus, e é hora de os comunistas exporem abertamente seus objetivos, contrapondo às lendas sobre o espectro um manifesto do próprio partido.

I - Burgueses e Proletários

A história de toda sociedade até aqui é a história de lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre e oficial: opressores e oprimidos em luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, que sempre terminou numa reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou no declínio comum das classes em luta. As épocas anteriores eram escalonadas em muitos degraus — Roma tinha patrícios, cavaleiros, plebeus e escravos; a Idade Média, senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação, oficiais e servos, com subgradações dentro de quase cada camada. A sociedade burguesa não aboliu as oposições de classes: pôs novas no lugar das antigas. Sua marca é ter simplificado o conflito — a sociedade inteira cinde-se em dois campos que se enfrentam diretamente: burguesia e proletariado.

Dos servos medievais saíram os habitantes das primeiras cidades, e destes os primeiros elementos da burguesia. O descobrimento da América e a circunavegação da África abriram terreno novo: o mercado das Índias Orientais e da China, a colonização, o intercâmbio colonial e a multiplicação das mercadorias deram ao comércio, à navegação e à indústria um surto inédito, acelerando o elemento revolucionário dentro do feudalismo em ruína. A produção avançou em degraus, cada um estourando os limites do anterior: a indústria corporativa não deu conta dos novos mercados e cedeu à manufatura, que trocou a divisão do trabalho entre corporações pela divisão dentro de cada oficina; com o vapor e a maquinaria a manufatura também ficou pequena, e no lugar do estado médio industrial entraram os milionários da indústria, chefes de exércitos industriais inteiros — os burgueses modernos. A grande indústria estabeleceu o mercado mundial, que realimentou comércio, navegação e comunicações, num ciclo em que a burguesia multiplicou capitais e empurrou para o fundo do palco todas as classes herdadas da Idade Média. O poder político acompanhou passo a passo o econômico: ordem oprimida sob os senhores feudais, comuna armada e autoadministrada, cidade-república, terceiro-estado tributário da monarquia, contrapeso à nobreza, base das grandes monarquias — até a dominação exclusiva no Estado representativo moderno.

O moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa.

A burguesia desempenhou um papel altamente revolucionário. Destruiu as relações feudais, patriarcais e idílicas; rasgou os laços que prendiam o homem aos seus “superiores naturais” e não deixou entre homem e homem outro laço que o do interesse nu, o do frio pagamento à vista. Afogou o entusiasmo cavalheiresco na água gelada do cálculo egoísta, dissolveu a dignidade pessoal em valor de troca e trocou as inúmeras liberdades conquistadas por uma só, a de comércio — substituindo a exploração encoberta por ilusões políticas e religiosas pela exploração seca, direta e aberta. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta e o cientista em assalariados seus; reduziu a família a pura relação de dinheiro; e revelou que a brutalidade que a reação admira na Idade Média tinha como complemento a mais indolente vadiagem — foi ela quem primeiro mostrou do que a atividade humana é capaz, com maravilhas de outra ordem que as pirâmides, os aquedutos e as catedrais góticas.

Todas as classes dominantes anteriores dependiam de conservar o modo de produção; a burguesia é a primeira que não pode existir sem revolucioná-lo permanentemente — e com ele, todas as relações sociais. Abalo ininterrupto, incerteza e movimento eternos: as relações fixas se dissolvem, as recém-formadas envelhecem antes de ossificar, tudo o que era estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessacralizado, e os homens são enfim obrigados a encarar com olhos prosaicos sua posição na vida.

A busca de escoamento sempre maior a persegue pelo globo, e o resultado é uma produção e um consumo cosmopolitas. As indústrias nacionais são aniquiladas e substituídas por outras, que já não trabalham matérias-primas locais mas as das zonas mais remotas, e cujos produtos são consumidos no mundo inteiro; no lugar das velhas necessidades entram novas, que exigem produtos dos climas mais distantes, e a autossuficiência local cede a um intercâmbio universal e à dependência mútua das nações. O mesmo vale na produção espiritual: os bens intelectuais de cada nação viram patrimônio comum, e das literaturas nacionais forma-se uma literatura mundial.

Os preços baratos de suas mercadorias são a artilharia pesada com que a burguesia derruba todas as muralhas da China. Ela compele todas as nações a adotar seu modo de produção sob pena de ruína — obriga-as a se tornarem burguesas. Numa palavra: cria um mundo à sua própria imagem.

Submeteu o campo à cidade, criou cidades enormes e arrancou boa parte da população ao isolamento rural; e assim como tornou o campo dependente da cidade, tornou os países agrícolas dependentes dos industriais, e o Oriente do Ocidente. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos — com a consequência necessária da centralização política: províncias antes independentes, com leis, governos e tarifas próprios, foram comprimidas numa nação, num governo, numa lei, numa linha aduaneira. Em menos de um século criou forças produtivas mais colossais que todas as gerações anteriores somadas: subjugação das forças da natureza, maquinaria, química aplicada à indústria e à lavoura, navegação a vapor, ferrovias, telégrafos, continentes arroteados, rios tornados navegáveis, populações inteiras feitas brotar do chão.

Agora a virada. Os meios de produção que formaram a burguesia nasceram dentro da sociedade feudal; a certa altura as relações feudais deixaram de corresponder às forças produtivas e, em vez de fomentar a produção, passaram a tolhê-la. Viraram grilhões — e foram rompidos. O mesmo filme se repete diante dos nossos olhos.

A sociedade burguesa moderna, que desencadeou meios tão poderosos de produção, é como o feiticeiro que já não consegue dominar as forças subterrâneas que invocou.

Há décadas a história da indústria é a história da revolta das forças produtivas modernas contra as relações de produção modernas. Basta olhar as crises comerciais periódicas, que destroem regularmente não só produtos como forças produtivas já criadas e põem em xeque a existência de toda a sociedade burguesa. Nelas irrompe uma epidemia que teria parecido absurda a qualquer época anterior: a epidemia da sobreprodução. A sociedade é devolvida a uma barbárie momentânea, como se uma fome lhe tivesse cortado os meios de subsistência. Por quê? Porque possui civilização demais, meios de vida demais, indústria demais, comércio demais — as forças produtivas tornaram-se poderosas demais para as relações de propriedade burguesas, que já não as comportam. E como a burguesia supera as crises? Aniquilando à força uma massa de forças produtivas e conquistando novos mercados enquanto explora mais fundo os antigos: ou seja, preparando crises mais amplas e reduzindo os meios de preveni-las.

As armas com que derrubou o feudalismo voltam-se agora contra ela. E ela não forjou apenas as armas: gerou também os homens que vão manejá-las, os proletários — classe que só vive enquanto encontra trabalho, e só encontra trabalho enquanto seu trabalho aumenta o capital. Obrigados a se vender à peça, são mercadoria exposta a todas as oscilações do mercado. A degradação é encadeada:

  • Com a maquinaria e a divisão do trabalho, o trabalho perde todo caráter autônomo e todo atrativo: o operário vira mero acessório da máquina, do qual se exige o manejo mais simples e monótono.
  • Seu custo reduz-se quase só aos meios de vida necessários ao sustento e à reprodução; como o preço de uma mercadoria equivale ao seu custo de produção, o salário cai na mesma medida em que cresce a repugnância pelo trabalho.
  • Simultaneamente a massa de trabalho aumenta: mais horas, mais trabalho exigido no mesmo tempo, máquinas aceleradas.
  • Quanto menos habilidade e força o trabalho exige, mais o trabalho dos homens é desalojado pelo das mulheres: diferenças de sexo e idade perdem validade social, restando instrumentos de trabalho de custos diferentes.
  • Terminada a exploração pelo fabricante, com o salário pago, caem sobre o operário o senhorio, o merceeiro, o penhorista.

A oficina do mestre patriarcal virou a grande fábrica: massas comprimidas, organizadas como tropa sob uma hierarquia completa de oficiais, soldados rasos da indústria. Não são servos apenas da classe e do Estado burgueses — hora a hora são servos da máquina, do vigilante e do fabricante, num despotismo tanto mais odioso quanto mais abertamente proclama o lucro como objetivo. E os estados médios — pequenos industriais, comerciantes, rentistas, artesãos, camponeses — despencam para dentro do proletariado, porque seu capital não dá conta da escala e sua habilidade é desvalorizada. O proletariado recruta-se de todas as classes da população.

Sua luta começa junto com sua existência, e evolui por estádios. Primeiro, a revolta cega: lutam operários isolados, depois os de uma fábrica, depois os de um ramo, sempre contra o burguês que os explora diretamente — e atacam o alvo errado, destruindo mercadorias concorrentes, quebrando máquinas e incendiando fábricas para recuperar a posição perdida do operário medieval. Aqui são massa dispersa e dividida pela concorrência; sua coesão não é obra própria, mas efeito da união da burguesia, que precisa mobilizá-los para fins políticos próprios. Nesse estádio não combatem seus inimigos, e sim os inimigos dos seus inimigos — monarquia absoluta, proprietários fundiários, burgueses não industriais, pequenos burgueses —, e cada vitória assim obtida é da burguesia. Depois, a coalizão: o proletariado se multiplica, é comprimido em massas maiores e passa a sentir sua força; a maquinaria apaga as diferenças entre os trabalhos e nivela os salários por baixo; a concorrência entre burgueses e as crises tornam o salário oscilante e a vida insegura; as colisões individuais assumem caráter de colisões entre classes, e formam-se coalizões pela manutenção do salário e associações duradouras. Enfim, a classe vira partido. As vitórias são transitórias, mas não é esse o ponto: o resultado real das lutas é a união crescente dos operários, favorecida pelos meios de comunicação que a própria grande indústria criou. Basta esse contato para centralizar as muitas lutas locais numa luta nacional, numa luta de classes — e toda luta de classes é uma luta política.

A união que os burgueses medievais levaram séculos para conseguir com seus caminhos vicinais, os proletários modernos conquistam em poucos anos com as ferrovias.

Essa organização em classe, e portanto em partido, é rompida a todo instante pela concorrência entre os próprios operários — mas renasce sempre mais forte, e arranca leis aproveitando as cisões da burguesia, como a lei das dez horas na Inglaterra. A própria velha sociedade adianta o processo: a burguesia vive em luta permanente — contra a aristocracia, contra frações burguesas rivais, contra a burguesia estrangeira — e em todas é obrigada a apelar ao proletariado, arrastando-o para o terreno político e entregando-lhe seus próprios elementos de formação, isto é, armas contra ela mesma. Setores inteiros da classe dominante são lançados no proletariado e levam consigo mais formação. E quando a luta se aproxima da decisão, uma parte da classe dominante desliga-se e adere à classe que traz o futuro nas mãos — como antes parte da nobreza passou à burguesia, agora parte dos ideólogos burgueses, os que se elevaram à compreensão teórica do movimento histórico, passa ao proletariado.

De todas as classes que enfrentam a burguesia, só o proletariado é realmente revolucionário; as demais soçobram com a grande indústria, da qual ele é o produto mais característico. Os estados médios combatem a burguesia apenas para se preservar como estados médios: são conservadores e, mais que isso, reacionários, pois tentam girar para trás a roda da história — só são revolucionários à luz de sua passagem iminente ao proletariado. Já o lumpemproletariado, putrefação passiva das camadas mais baixas da velha sociedade, pode ser aqui e ali arrastado, mas por toda a sua situação de vida está mais disposto a se deixar comprar para maquinações reacionárias.

No proletário, as condições de vida da velha sociedade já estão aniquiladas: não tem propriedade; sua relação com mulher e filhos nada tem em comum com a família burguesa; o trabalho industrial moderno despiu-o de qualquer caráter nacional; leis, moral e religião são para ele preconceitos burgueses atrás dos quais se escondem interesses burgueses. Todas as classes que antes conquistaram a dominação asseguraram sua posição submetendo a sociedade às condições do seu proveito — os proletários não podem: só conquistam as forças produtivas sociais abolindo seu próprio modo de apropriação e, com ele, todo modo de apropriação anterior. Nada têm de seu a assegurar; têm de destruir todas as seguranças privadas.

Todos os movimentos até aqui foram movimentos de minorias, ou no interesse de minorias. O movimento proletário é o movimento autônomo da imensa maioria, no interesse da imensa maioria.

A camada mais baixa não pode se erguer sem fazer explodir toda a superestrutura da sociedade oficial. Pela forma — não pelo conteúdo —, sua luta começa nacional: cada proletariado acerta contas primeiro com a própria burguesia. E há uma razão estrutural pela qual a burguesia não pode continuar dominando: para oprimir uma classe é preciso ao menos assegurar-lhe as condições de arrastar sua existência servil. O servo chegou a membro da comuna, o pequeno burguês chegou a burguês; o operário moderno faz o caminho inverso — em vez de se elevar com o progresso industrial, afunda abaixo das condições da própria classe, torna-se indigente, e o pauperismo cresce mais depressa que a população e a riqueza.

A burguesia é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar a existência do seu escravo dentro da própria escravidão — é obrigada a alimentá-lo, em vez de ser alimentada por ele.

Sua condição de existência é a acumulação de riqueza em mãos privadas; a condição do capital é o trabalho assalariado, que repousa exclusivamente na concorrência entre os operários. Ora, o progresso da indústria, do qual a burguesia é portadora involuntária, substitui esse isolamento pela união revolucionária através da associação — retirando de sob seus pés a própria base sobre a qual ela produz e se apropria.

Ela produz, antes de tudo, o seu próprio coveiro. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.

II- Proletários e Comunistas

Os comunistas não são um partido particular ao lado dos outros partidos operários, não têm interesses separados dos do proletariado inteiro e não estabelecem princípios próprios para moldar o movimento. A diferença é dupla e prática: nas lutas nacionais acentuam os interesses comuns, independentes da nacionalidade; nos diversos estádios da luta representam sempre o interesse do movimento total. São o setor mais decidido e impulsionador, e têm sobre a massa restante a vantagem de compreender as condições, o curso e os resultados gerais do movimento. O objetivo imediato é o mesmo dos demais partidos proletários: formação do proletariado em classe, derrube da dominação burguesa, conquista do poder político. E as proposições teóricas não são invenção de nenhum “melhorador do mundo”: são expressões gerais de uma luta de classes que existe.

Abolir relações de propriedade não é peculiaridade comunista — todas sempre estiveram sujeitas a mudança histórica, e a Revolução Francesa aboliu a feudal em favor da burguesa. O que distingue o comunismo é a abolição da propriedade burguesa, expressão última da produção e apropriação assentadas na exploração de uma classe por outra.

Os comunistas podem condensar sua teoria numa única expressão: supressão da propriedade privada.

“Vocês querem abolir a propriedade fruto do trabalho próprio.” A propriedade pequeno-burguesa e camponesa não precisa ser abolida: o desenvolvimento da indústria a abole diariamente. Quanto à burguesa, o trabalho assalariado não cria propriedade para o proletário — cria capital, a propriedade que explora o trabalho assalariado e só se multiplica gerando novo trabalho assalariado. Ser capitalista significa ocupar na produção uma posição não apenas pessoal, mas social: o capital é produto comunitário, movido pela atividade comum de muitos e, no limite, de todos. Não é um poder pessoal, é um poder social. Transformá-lo em propriedade comunitária não converte propriedade pessoal em social — muda apenas o caráter social da propriedade, que perde seu caráter de classe. Do outro lado, o preço médio do trabalho assalariado é o mínimo do salário: os meios de vida necessários para manter o operário vivo como operário. Não se quer abolir essa apropriação pessoal, que não deixa excedente capaz de conferir poder sobre trabalho alheio — quer-se suprimir apenas seu caráter miserável, a condição em que o operário só vive para multiplicar o capital.

Na sociedade burguesa, o trabalho vivo é apenas um meio de multiplicar o trabalho acumulado. Na comunista, o trabalho acumulado é apenas um meio de ampliar a vida dos operários. Ali domina o passado sobre o presente; aqui, o presente sobre o passado.

Na sociedade burguesa o capital é autônomo e pessoal, enquanto o indivíduo que age não é nem uma coisa nem outra. Suprimir isso, diz a burguesia, é suprimir a personalidade e a liberdade — e tem razão: trata-se de suprimir a personalidade, a autonomia e a liberdade burguesas. Afinal, nas relações atuais, liberdade significa comércio livre; caindo o tráfico, cai o tráfico livre, e todo o palavreado sobre liberdade só faz sentido diante do comércio constrangido da Idade Média.

“Vocês querem suprimir a propriedade privada!” Mas na sociedade de vocês ela já está suprimida para nove décimos dos membros — existe precisamente porque não existe para nove décimos. A acusação é a de querer suprimir uma propriedade que tem como condição necessária que a imensa maioria nada possua. Numa palavra: vocês nos acusam de querer suprimir a propriedade de vocês. Certamente. E note o que o argumento seguinte revela: a partir do momento em que o trabalho não puder mais ser convertido em capital, vocês declaram que a pessoa foi suprimida — concedendo assim que por “pessoa” não entendem ninguém além do burguês proprietário. O comunismo não tira de ninguém o poder de se apropriar de produtos sociais; tira apenas o poder de, por essa apropriação, subjugar trabalho alheio.

“Sem propriedade privada, ninguém trabalharia.” Então a sociedade burguesa já teria perecido de inércia, pois nela os que trabalham não ganham e os que ganham não trabalham. A objeção reduz-se a uma tautologia: deixa de haver trabalho assalariado assim que deixa de haver capital.

“E a cultura?” Para o burguês, o fim da cultura de classe equivale ao fim da cultura — mas a cultura cuja perda ele lamenta é, para a enorme maioria, adestramento para virar máquina. Não discutam conosco enquanto medirem a abolição da propriedade burguesa pelas próprias representações burguesas de liberdade, cultura e direito: essas ideias são produtos das relações de produção burguesas, assim como o direito de vocês é a vontade da sua classe elevada a lei. A ilusão interessada que converte relações históricas transitórias em leis eternas da Natureza vocês compartilham com todas as classes dominantes já desaparecidas — entendem isso quando se trata da propriedade antiga e da feudal, e deixam de entender quando se trata da burguesa.

Supressão da família! Sobre o que assenta a família burguesa? Sobre o capital e o proveito privado. Plenamente desenvolvida só existe para a burguesia, e tem como complemento necessário a ausência forçada de família para os proletários e a prostituição pública — ambas desaparecem com o capital que as sustenta. Acusam-nos de suprimir a exploração das crianças pelos pais? Confessamos este crime. De destruir as relações íntimas ao substituir a educação doméstica pela social? Mas a educação de vocês também é determinada pela sociedade, pela interferência direta ou indireta da escola; os comunistas não inventam esse efeito, apenas mudam seu caráter, arrancando a educação à influência da classe dominante. E o palavreado sobre a relação entre pais e filhos fica mais repugnante quanto mais a grande indústria rasga os laços familiares proletários e transforma seus filhos em artigos de comércio.

A comunidade das mulheres! O burguês enxerga na mulher um mero instrumento de produção; ao ouvir que os instrumentos devem ser explorados em comum, conclui que o mesmo destino caberá às mulheres. Não desconfia que se trata precisamente de suprimir a posição da mulher como instrumento de produção. E nada é mais ridículo que sua indignação moralíssima: a comunidade de mulheres já existe. Não satisfeitos em dispor das mulheres e filhas de seus proletários — sem falar da prostituição oficial —, os burgueses encontram prazer capital em seduzir as esposas uns dos outros. O casamento burguês é, na prática, a comunidade das esposas; no máximo se poderia acusar os comunistas de querer substituir uma comunidade hipocritamente escondida por outra, franca e oficial. Suprimidas as relações de produção atuais, desaparece a prostituição, oficial e não oficial.

A pátria. Os operários não têm pátria; não se pode tirar deles o que não têm. Como o proletariado precisa primeiro conquistar a dominação política e constituir-se como nação, ele é ainda nacional — mas não no sentido burguês. Os antagonismos nacionais já desaparecem com o livre comércio, o mercado mundial e a uniformidade da produção; a dominação do proletariado acelerará isso, e a unidade de ação é uma das primeiras condições de sua libertação.

À medida que se suprime a exploração de um indivíduo por outro, suprime-se a exploração de uma nação por outra. Com a oposição de classes dentro da nação, cai a posição hostil das nações entre si.

As acusações religiosas e filosóficas não merecem discussão pormenorizada. Será preciso muita profundidade para compreender que, quando mudam as relações de vida e a existência social dos homens, mudam também suas representações e conceitos — numa palavra, sua consciência?

O que prova a história das ideias senão que a produção espiritual se reconfigura junto com a material? As ideias dominantes de um tempo foram sempre apenas as ideias da classe dominante.

Falar de ideias que revolucionam uma sociedade apenas exprime que, no seio da velha, formaram-se os elementos de uma nova. Quando o mundo antigo declinava, as religiões antigas foram vencidas pela cristã; quando as ideias cristãs sucumbiram, no século XVIII, às ideias das Luzes, a sociedade feudal travava sua luta de morte com a burguesia revolucionária — e as ideias de liberdade de consciência e de religião apenas exprimiam, no terreno do saber, a dominação da livre concorrência. Resta a objeção das verdades eternas, comuns a todos os estádios sociais, que o comunismo aboliria. A que se reduz? A exploração de uma parte da sociedade pela outra é fato comum a todos os séculos passados; não surpreende que a consciência social de todos eles se mova em certas formas comuns — formas que só se dissolvem por completo com o desaparecimento total da oposição de classes.

A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações de propriedade legadas. Não admira que rompa, do modo mais radical, com as ideias legadas.

O primeiro passo da revolução operária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia pela luta. Ele usará essa dominação para arrancar aos poucos todo o capital à burguesia, centralizar os instrumentos de produção nas mãos do Estado — isto é, do proletariado organizado como classe dominante — e multiplicar as forças produtivas. Isso só pode começar por intervenções despóticas no direito de propriedade: medidas que parecem economicamente insuficientes, mas que no curso do movimento levam para além de si mesmas. Variarão conforme o país; para os mais avançados, valem em geral:

  1. Expropriação da propriedade fundiária e uso das rendas da terra para despesas do Estado.
  2. Pesado imposto progressivo.
  3. Abolição do direito de herança.
  4. Confisco da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes.
  5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, por um banco nacional com capital estatal e monopólio exclusivo.
  6. Centralização do sistema de transportes nas mãos do Estado.
  7. Multiplicação das fábricas nacionais e dos instrumentos de produção; arroteamento e melhoramento das terras segundo um plano comum.
  8. Trabalho obrigatório para todos; instituição de exércitos industriais, sobretudo na agricultura.
  9. Unificação da exploração agrícola e industrial, visando à eliminação gradual da diferença entre cidade e campo.
  10. Educação pública e gratuita para todas as crianças; eliminação do trabalho infantil nas fábricas em sua forma atual; unificação da educação com a produção material.

Desaparecidas as diferenças de classes e concentrada a produção nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perde o caráter político — porque poder político, em sentido próprio, é o poder organizado de uma classe para oprimir outra. Ao suprimir à força as velhas relações de produção, o proletariado suprime junto com elas as condições da oposição de classes, as classes em geral e, com isso, a sua própria dominação como classe.

No lugar da velha sociedade burguesa, com suas classes e oposições de classes, entra uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.

III - Literatura Socialista e Comunista

1. O Socialismo Reacionário

a) O Socialismo Feudal

Derrotadas outra vez pelo odiado arrivista — na revolução francesa de julho de 1830 e no movimento de reforma inglês —, as aristocracias francesa e inglesa perderam a chance de uma luta política séria e restaram-lhes os panfletos. Mas o velho palavreado da Restauração já não colava: para despertar simpatia, a aristocracia teve de fingir esquecer os próprios interesses e acusar a burguesia em nome da classe operária explorada. Nasceu o socialismo feudal — metade canto lamentoso, metade pasquim; metade eco do passado, metade ameaça do futuro. Às vezes acerta o alvo com um juízo amargo e demolidor, mas sempre soa cômico pela incapacidade de compreender o curso da história moderna.

Agitavam como estandarte o alforge de mendigo do proletário para juntar o povo atrás de si. Mas toda vez que o povo os seguia, divisava-lhes no traseiro os velhos brasões feudais — e dispersava-se em gargalhadas.

Legitimistas franceses e a Jovem Inglaterra deram esse espetáculo. Ao alegar que seu modo de exploração era diferente, esquecem que exploravam em condições ultrapassadas; ao provar que o proletariado moderno não existia sob sua dominação, esquecem que a burguesia foi rebento necessário da sua própria ordem. E disfarçam tão pouco o caráter reacionário da crítica que sua acusação principal é justamente esta: sob o regime burguês desenvolveu-se uma classe que fará explodir a velha ordem — censuram a burguesia mais por ter gerado um proletariado revolucionário do que por ter gerado um proletariado. Na prática apoiam todas as medidas violentas contra os operários e, apesar do palavreado pomposo, acomodam-se a trocar lealdade, amor e honra pelo comércio de lã, beterraba e aguardente. E como os padres sempre andaram de braço dado com os feudais, o socialismo clerical anda com o feudal: nada mais fácil que dar ao ascetismo cristão uma demão socialista, já que o cristianismo também bradou contra a propriedade privada, o casamento e o Estado, pregando caridade, pobreza, celibato e vida monástica.

O socialismo cristão é apenas a água benta com que o padre abençoa a irritação do aristocrata.

b) O Socialismo Pequeno-Burguês

A pequena burguesia medieval e o pequeno campesinato foram precursores da burguesia moderna e ainda vegetam nos países atrasados. Nos desenvolvidos formou-se uma nova pequena burguesia, que paira entre proletariado e burguesia e se refaz sem parar como parte complementar da sociedade burguesa, enquanto seus membros são atirados continuamente ao proletariado — e veem aproximar-se o momento em que desaparecerão como parte autônoma, substituídos por capatazes e criados. Na França, onde os camponeses eram bem mais da metade da população, era natural que escritores favoráveis ao proletariado aplicassem à crítica do regime burguês a bitola pequeno-burguesa e camponesa. Sismondi é o chefe dessa literatura.

O mérito é grande: ela dissecou com acuidade as contradições das relações de produção modernas e desmascarou os embelezamentos dos economistas, demonstrando de modo irrefutável os efeitos destruidores da maquinaria e da divisão do trabalho, a concentração dos capitais e da posse fundiária, a sobreprodução e as crises, o declínio necessário dos pequenos burgueses e camponeses, a miséria do proletariado, a anarquia na produção, as desproporções gritantes na repartição da riqueza, a guerra industrial de extermínio entre as nações e a dissolução dos velhos costumes, das relações de família e das nacionalidades. O problema está no lado positivo: quer ou restaurar os velhos meios de produção, ou reencarcerar os modernos no quadro das relações antigas que eles necessariamente estouraram. É reacionário e utópico ao mesmo tempo — suas últimas palavras são sistema corporativo na manufatura e economia patriarcal no campo. Depois disso, perdeu-se numa ressaca covarde.

c) O Socialismo Alemão ou [o Socialismo] “Verdadeiro”

Eis um caso de importação malfeita. A literatura socialista francesa nasceu sob a pressão de uma burguesia já dominante; chegou à Alemanha quando a burguesia alemã apenas começava sua luta contra o absolutismo feudal. Filósofos e “belos espíritos” agarraram-na avidamente, esquecendo que com os escritos não imigraram as relações de vida francesas — sem esse solo, ela perdeu todo significado prático e virou especulação sobre a essência humana. Para os filósofos alemães, as reivindicações da Revolução Francesa viraram exigências da “razão prática”, e a vontade da burguesia revolucionária francesa virou lei da vontade pura, verdadeiramente humana.

Os literatos alemães ajustaram as ideias francesas à sua velha consciência filosófica — apropriação por tradução. A analogia é impagável: os monges escreviam hagiografias insípidas por cima dos manuscritos clássicos do tempo pagão; os alemães fizeram o inverso, escrevendo seus disparates filosóficos por baixo do original francês. Sob a crítica às relações de dinheiro escreveram “alienação da essência humana”; sob a crítica ao Estado burguês, “superação da dominação do abstratamente universal”. Batizaram a operação de “filosofia da ação”, “socialismo verdadeiro”, “ciência alemã do socialismo”. Emasculada a preceito, a literatura francesa deixou de exprimir a luta de uma classe contra outra — e o alemão convenceu-se de ter triunfado sobre a “unilateralidade francesa”, defendendo, em vez de necessidades verdadeiras, a necessidade da verdade; em vez dos interesses do proletário, os do homem em geral, que não pertence a nenhuma classe nem sequer à realidade, mas apenas ao céu nebuloso da fantasia filosófica.

Quando o movimento liberal alemão ficou sério, esse socialismo achou sua oportunidade: contrapor reivindicações socialistas ao movimento político, arremessando anátemas contra o liberalismo, o Estado representativo, a concorrência, a liberdade de imprensa e a igualdade burguesas, e pregando que o povo nada tinha a ganhar com o movimento burguês. Esqueceu que a crítica francesa da qual era eco sem espírito pressupunha a sociedade burguesa moderna — justamente o que faltava conquistar na Alemanha. Serviu, assim, aos governos absolutos como espantalho contra a burguesia ascendente e como doce complemento dos golpes de chicote e das balas com que esses mesmos governos trataram as insurreições operárias. Representou o interesse reacionário da pequena burguesia alemã legada do século XVI — base social real das situações existentes, que teme tanto a concentração do capital quanto o proletariado revolucionário. Para ela, matava dois coelhos com uma cajadada, e espalhou-se como epidemia: a veste de teias de aranha especulativas, bordada de retórica e embebida em orvalho sentimental, em que envolveram sua meia dúzia de ossudas “verdades eternas”, só multiplicou a venda da mercadoria. No limite, proclamou a nação alemã como nação normal e o filisteu alemão como homem normal, deu a todas as infâmias dele um sentido socialista superior e anunciou sua sublimidade imparcial acima de todas as lutas de classes.

2. O Socialismo Conservador ou [Socialismo] Burguês

Uma parte da burguesia quer remediar os males sociais para assegurar a existência da sociedade burguesa: economistas, filantropos, humanitários, melhoradores da situação das classes trabalhadoras, organizadores de caridade, protetores dos animais, fundadores de ligas antialcoólicas, reformadores de toda espécie. Também isso virou sistema — exemplo, a Philosophie de la misère, de Proudhon. O desejo é simples e impossível: querem as condições da sociedade moderna sem as lutas e perigos que dela decorrem necessariamente, querem a sociedade existente menos os elementos que a revolucionam. Querem a burguesia sem o proletariado. Ao exortarem o proletariado a entrar na nova Jerusalém, no fundo só lhe pedem que fique onde está e abandone as representações odiosas que faz da sociedade atual.

Há uma segunda forma, menos sistemática e mais prática: tirar da classe operária o gosto pelos movimentos revolucionários, mostrando-lhe que só lhe é útil uma alteração das relações materiais, não esta ou aquela mudança política. Só que por “alteração das relações materiais” não se entende a abolição das relações de produção burguesas, mas melhoramentos administrativos sobre o terreno dessas mesmas relações — que nada mudam entre capital e trabalho assalariado e, no melhor dos casos, reduzem à burguesia os custos de sua dominação.

Sua expressão exata aparece quando vira pura retórica: comércio livre, no interesse da classe trabalhadora; proteção alfandegária, no interesse da classe trabalhadora; prisões celulares, no interesse da classe trabalhadora. O socialismo da burguesia consiste em afirmar que os burgueses são burgueses — no interesse da classe trabalhadora.

3. O Socialismo e Comunismo Crítico-Utópicos

Não se trata aqui da literatura que exprimiu as reivindicações do proletariado nas grandes revoluções modernas — Babeuf e afins. As primeiras tentativas do proletariado de impor diretamente seu interesse de classe fracassaram necessariamente: faltavam sua própria figura desenvolvida e as condições materiais de libertação, que são produto da época burguesa. Pelo conteúdo, aquela literatura é reacionária: prega ascetismo geral e igualitarismo grosseiro.

Os sistemas de Saint-Simon, Fourier e Owen surgem no primeiro período, ainda não desenvolvido, da luta. Seus inventores enxergam a oposição de classes e os elementos dissolventes da sociedade dominante, mas não enxergam no proletariado nenhuma atividade histórica nem movimento político próprio; e como não encontram as condições materiais da libertação, saem à procura de uma ciência social capaz de criá-las. A substituição é sistemática: no lugar da atividade social, a atividade inventiva pessoal deles; no lugar das condições históricas, condições fantásticas; no lugar da organização gradual do proletariado em classe, uma organização da sociedade urdida por eles. A história futura resolve-se na propaganda e na execução de seus planos. Defendem o interesse da classe trabalhadora como a classe mais sofredora — e é só sob esse ângulo que o proletariado existe para eles. Creem-se acima da oposição de classes: querem melhorar a vida de todos, inclusive dos mais bem colocados, e por isso apelam à sociedade inteira, de preferência à classe dominante. Rejeitam toda ação política e revolucionária, querendo chegar lá por via pacífica, com pequenos experimentos fadados ao fracasso que abririam caminho ao novo evangelho social pela força do exemplo.

Há, contudo, um lado valioso: esses escritos contêm elementos críticos, atacam todas as bases da sociedade existente e forneceram material valioso para o esclarecimento dos operários. Suas proposições positivas — supressão da oposição entre cidade e campo, da família, do proveito privado e do trabalho assalariado; harmonia social; transformação do Estado em mera administração da produção — exprimem apenas o desaparecimento da oposição de classes que só então começava a se desenvolver, e por isso continuam utópicas.

A significação do socialismo crítico-utópico está na proporção inversa do seu desenvolvimento histórico: quanto mais a luta de classes se configura, mais essa elevação fantástica acima dela perde valor prático e justificação teórica.

Se os autores foram, em muitos aspectos, revolucionários, seus discípulos formaram sempre seitas reacionárias. Agarrados às velhas intuições dos mestres, passaram a embotar a luta de classes e a mediar as oposições, sonhando com falanstérios isolados, colônias e uma pequena Icária — nova Jerusalém em formato de bolso — e apelando, para erguer esses castelos no ar, à filantropia das carteiras burguesas. Vão caindo na categoria dos socialistas reacionários ou conservadores, dos quais se distinguem só por um pedantismo mais sistemático e pela superstição fanática nos efeitos milagrosos de sua ciência social. Por isso se opõem com exasperação a todo movimento político dos operários: owenistas contra os cartistas, fourieristas contra os reformistas.

IV - Posição dos Comunistas para com os Diversos Partidos Oposicionistas

Da seção II decorre a relação com os partidos operários já constituídos — cartistas na Inglaterra, reformadores agrários na América do Norte. Os comunistas lutam pelos fins imediatos da classe operária, mas representam simultaneamente o futuro do movimento:

  • França: juntam-se ao partido socialista-democrático contra a burguesia conservadora e radical, sem abdicar de criticar as frases e ilusões herdadas do legado revolucionário.
  • Suíça: apoiam os radicais, reconhecendo que o partido reúne elementos contraditórios — socialistas democráticos à francesa e burgueses radicais.
  • Polônia: apoiam o partido que faz da revolução agrária a condição da libertação nacional, o mesmo da insurreição de Cracóvia de 1846.
  • Alemanha: assim que a burguesia entra revolucionariamente em cena, lutam ao lado dela contra a monarquia absoluta, a propriedade feudal da terra e a pequena burguesice.

O apoio alemão vem com cláusula permanente: não deixar de formar nos operários, nem por um instante, a consciência da oposição hostil entre burguesia e proletariado. A razão é tática — as condições que a burguesia necessariamente cria com sua dominação devem poder ser viradas imediatamente como armas contra ela, para que a luta comece na hora seguinte ao derrube das classes reacionárias. E por isso a Alemanha recebe a atenção principal: está em vésperas de uma revolução burguesa, executada em condições de civilização mais avançada e com um proletariado muito mais desenvolvido que o da Inglaterra no século XVII ou o da França no XVIII.

A revolução burguesa alemã só pode ser, portanto, o prelúdio imediato de uma revolução proletária.

Em toda parte os comunistas apoiam todo movimento revolucionário contra as situações existentes; em todos eles põem em relevo a questão da propriedade como a questão fundamental; e em toda parte trabalham pela ligação entre os partidos democráticos de todos os países. Recusam dissimular suas perspectivas: declaram abertamente que seus fins só podem ser alcançados pelo derrube violento de toda a ordem social existente.

Podem as classes dominantes tremer diante de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder além de suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.

Proletários de todos os países, uni-vos!